Friday, 14 December 2007

ESPRIT DE PORC

O bom velhinho está por toda parte. E o espírito natalino também.

Numa famosa loja popular de departamentos, no corredor dos enfeites da época, uma senhora dá uma cotovelada em outra. E...nem pedido de desculpas. Esse é o espírito natalino, o autêntico esprit de porc.

No shopping qualquer dia parece sábado. Onde está a crise? Será que tudo aquilo é efeito do décimo terceiro? Será que as compras serão parceladas em dez vezes?

O importante é - como eu mesma já ouvi - TER, TER, TER.

Às favas com mister Shakespeare. Ser??? Coisa mais demodê.

Vejamos: mesa com todo tipo de comida. A palavra fartura assume outra dimensão. Se você "passa" na casa de alguém é educado levar algo. E sempre há um comentário (expresso ou não) de que isso ou aquilo poderia estar melhor. O peru estava seco. A farofa, não tão boa quanto a sua...
Bebida alcoólica? Sim. Muita. De preferência a mais consumida por essas bandas em tempos de sol: cerveja. Todo mundo fica alegrinho e bonzinho.
Vestes novas. Ah, e agora o féchon é paetê, outrora conhecida também como lantejoula.
E desejar feliz natal pra todo mundo que está por perto, mesmo aquela pessoa que não te desce.
É o espírito natalino.

O fato de Jesus não ter nascido no dia 25 de dezembro seria irrelevante se as pessoas de fato lembrassem dele. O modo como ele nasceu já envergonharia quem se esbalda na orgia gastronômica, etílica e cínica. Mas que Jesus? É só aquele bebezinho naquele teatrinho de cerâmica que a gente chama de presépio. É o espírito natalino.

Tem também a parte dos presentes. Tem que dar. Tem que receber. Afinal, é gostoso. Mas parece obrigação. Fora que a pessoa compra com aquele dó...só pra dizer que deu. Se você dá algo, digamos, low quality...a pessoa tem que aceitar e adorar porque afinal você se lembrou dela. Se é você quem recebe o presentinho fuleiro, agradece e pensa com seus botões que aquilo deve ter custado uma merreca. É o espírito natalino.

O mais engraçado é que toda essa celeuma dura até a madrugada...na manhã do 25 parece que já passou. Conforme as horas vão passando é um dia como qualquer outro. À noite, tudo já se foi. É o espírito natalino.

Meu último natal aconteceu em 1988. Não tínhamos muito. A única guloseima de que me lembro é a gelatina de abacaxi que minha mãe fazia. Mas eu já havia passado natais vazios. Aquele foi singelo, cheio de significado. Um móvel de cozinha velho foi a mesa da árvore de natal que eu e minha irmã decoramos. Acendemos velas, nos ajoelhamos e começamos a ler os evangelhos à medida que a meia-noite se aproximava. Tínhamos tomado banho mas a roupa era a de sempre, de dormir. Quando deu a hora e os fogos começaram saímos pro quintal pra ver e orar agradecendo pela vinda dele. E eu confesso, fiquei olhando o céu. Talvez o Papai Noel aparecesse, não é mesmo?

Ainda acredito nele, de uma certa forma. O presente já foi entregue. Na verdade está sendo confeccionado... Mas já está aqui.

O que eu queria dizer que é uma correria absurda, ridícula, falsa essa de ter que ter coisas, ter que ter tal comida, vestir roupa assim ou assado.

Uma vez decolávamos em direção a Paris e havia um só passageiro a bordo. Judeu.

O que é ser cristão?

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