Friday, 26 September 2008

socorro e o revés do parto

socorro!
não estou sentindo nada
nem medo, nem calor, nem fogo
não vai dar mais pra chorar
nem pra rir

socorro!
alguma alma
mesmo que penada
me emreste suas penas
já não sinto amor, nem dor
já não sinto nada...

socorro!
alguém me dê um coração
que esse já não bate
nem apanha
por favor!
uma emoção pequena
qualquer coisa!
qualquer coisa que se sinta...

tem tantos sentimentos
deve ter algum que sirva
qualquer coisa
que se sinta
tem tantos sentimentos
deve ter algum que sirva

socorro!
alguma rua que me dê sentido
em qualquer cruzamento
acostamento, encruzilhada
socorro!
eu já não sinto nada...

parece o hino do deprimido. mas quem entende? ninguém entende. quem quer entender? ninguém quer entender. quem pode entender? ninguém pode entender.

algo que te rouba tudo. tudo mesmo.

o mais irônico é que esse não sentir nada é justamente sentir tudo. é lucidez extrema.

estou só. e meu coração - aquele arrítmico, intenso, tolo - ainda bate. ou, como diz a música, ainda apanha.

por que a gente ama?

por que a gente, quando ama, abre os olhos de manhã e o primeiro pensamento voa em direção àquela pessoa? por que até o cheiro dela a gente sente? por que aquela voz faz tanta falta? por que você daria tudo por uma carícia? e mais ainda que tudo, por um beijo...

romantismo? não.

saudade. leiam:

PEDAÇO DE MIM
Oh! Pedaço de mim
Oh! Metade afastada de mim
Leva o teu olhar
Que a saudade
É o pior tormento
É pior do que o esquecimento
É pior do que se entrevar
Oh! Pedaço de mim
Oh! Metade exilada de mim
Leva os teus sinais
Que a saudade dói como um barco
Que aos poucos descreve um arco
E evita atracar no cais
Oh! Pedaço de mim
Oh! Metade amputda de mim
Leva o que há de ti
Que a saudade dói latejada
É assim como uma fisgada
Num membro que já perdi
Oh! Pedaço de mim
Oh! Metade arrancada de mim
Leva o vulto teu
Que a saudade é o revés de um parto
A saudade é arrumar o quarto
Do filho que já morreu
Oh! Pedaço de mim
Oh! Metade adorada de mim
Lava os olhos meus
Que a saudade é o pior castigo...

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